sábado, 24 de outubro de 2009

A NATUREZA APOSTÓLICA DOS DONS - PARTE 11

A NATUREZA APOSTÓLICA DOS DONS ESPIRITUAIS DE I CORÍNTIOS 12

Prof. Moisés C. Bezerril

I CORÍNTIOS 12:28

A uns estabeleceu Deus na igreja, primeiramente, apóstolos; em segundo lugar profetas; em terceiro lugar, mestres; depois, operadores de milagres; depois, dons de curar, socorros, governos, variedade de línguas.”

Socorros (antilempseis)

A palavra antilempseis ocorre apenas uma vez em todo o Novo Testamento, sendo importada da LXX para o NT com o significado de auxílio de Deus ou dos homens; seu sentido básico é “auxílio”, “assistência”, “ajuda”, “socorro”.

O dom de socorro não aparece na primeira lista e sim na segunda do capítulo 12. É curioso que ninguém mais nas escrituras do Novo Testamento emprega este termo. Nem mesmo Paulo o usa em outros lugares. Mas isto não torna esse dom menos importante do que os outros dons, pois ele é de vital importância para a vida da igreja.

A vida da igreja cristã, no primeiro século, é marcada por muita perseguição imposta pelo judaísmo, e depois pelo Império Romano. Os apóstolos e os líderes da igreja tinham a incumbência de gastar tempo apenas com a Palavra. Mas uma igreja perseguida é uma igreja marcada por profundas necessidades. Essas necessidades não eram coisas simples que todos podiam resolver conjuntamente. Como ainda hoje, somente uns poucos se interessavam pelas necessidades dos outros. Nesse contexto Deus não deixou sua igreja órfã de sua misericórdia e cuidado; levantou e vocacionou pessoas, por meio de seu Espírito, as quais gastavam suas vidas cuidando dos crentes semi-mortos da perseguição, de viúvas que perderam seus maridos e seu sustento; esses diáconos adotavam filhos que perderam seus pais, dando comida e abrigo aos mais empobrecidos pela ira dos inimigos de Cristo. Também tornaram-se cuidadores das mulheres cristãs abandonadas por seus maridos pagãos. Essa vocação era obra do Espírito porque eles viveram numa época em que tinham de ser audaciosos e muito corajosos para se envolver em causas judiciais do império, sofrendo perseguições e correndo risco de morte. Dar guarida a um “criminoso” ou “fora da lei” (como eram considerados os cristãos do primeiro século pelo império) era apoiar a rebeldia contra o poder de Roma. Ninguém teria coragem de arriscar diariamente a própria vida por outra pessoa, a não ser se fosse pelo Espírito de Deus. Graças a esse dom os apóstolos foram preservados em suas vidas várias vezes. Assim foram os diáconos da igreja primitiva. O dom de socorros foi exercido pelo ofício do diaconato desde os dias apostólicos (At 6), e essa tem sido a melhor interpretação desse dom desde Crisóstomo.

Governos (kiberneseis)

A palavra kiberneseis é uma palavra raríssima na literatura do Novo Testamento, também originária da literatura da LXX. O substantivo era muito usado na literatura clássica para o piloto do navio, seu verbo era comum para a administração e o governo de uma casa.

O dom de governo não é tratado em nenhum outro lugar, a não ser nesta referência. Este dom é claramente distinto do dom de ensino (“palavra de conhecimento” ou “mestres”), também distinto do pastorado. Paulo poderia estar falando de presbíteros regentes, mas não há muitas provas para isto. Em I Tessalonicesnses 5:12 há alusão aos que “presidem”, mas esses são os mesmos que admoestam (nouthentais), possivelmente é o bispo de I Tm 3.

Há quem interprete I Tessalonicenses 5:17 como sendo dois tipos de presbíteros (docente e regente), mas o texto não dá segurança para isto por dois motivos:

a) governar bem e ensinar são dois pré-requisitos que devem ser encontrados no bispo de I Timóteo 3, possivelmente em 5:17 Paulo esteja falando da mesma pessoa;

b) a expressão paulina kalôs proistamenon(que governem bem) configura igualmente em I Timóteo 3:4 (para os bispos), 3:12 (para os diáconos), e 5:17 (para os presbíteros), designando apenas um bom governo ou uma boa liderança;

c) tendo em vista o emprego acima citado, expressão kalôs proistamenon não pode ser empregada para classe de presbíteros, e sim para a qualidade de presbítero de governar bem;

Como o dom de governo está calaramente distinto do dom de ensino tanto em I Coríntios como em Efésios, Paulo certamente está aplicando kiberneseis a uma classe de oficiais distinta da dos doutores da igreja. Essa parece ser o melhor argumento para a idéia de um presbítero regente das igrejas reformadas, o qual era conhecido na igreja antiga de seniores plebis.

Teresina, 08 de dezembro de 2005.

NOTAS

i Pois dizer “anátema Jesus” seria dizer “nulo Jesus”, ou seja, nega sua existência histórica.

1 Hodge p. 223. Minha Tradução.

2 Hodge p. 223. Minha Tradução.

3 Hodge p. 226.

4 p. 227.

5 Idem.

6 O termo dynamei não se aplica, em todo o NT, a pessoas que não sejam Jesus e o grupo dos apóstolos; fora esses dois, o dom era usado somente pelos falsos profetas.

7 É importante lembrar que a NVI consiste numa tradução com muitos problemas em outros lugares.

8 Nos dois casos onde o termo pneumati aparece referindo-se ao espírito humano (I Co 14.14,32) vem acompanhado de pronome possessivo (pneuma mou) adjunto adnominal (pneumata profetou) que distingue claramente o espírito humano do Espírito de Deus.

9 Tomemos como exemplo a ARA, que insere o termo “OUTRAS línguas”, e algumas edições corrigidas (Versão da Imprensa Bíblica) que acrescentam a expressão “LÍNGUAS ESTRANHAS”, que não aparecem no texto grego. É possível que esses acréscimos sejam feitos para descaracterizar as línguas como dialeto e torná-las como algo estranho ao homem.

10 Hodge, p. 230.

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

A NATUREZA APOSTÓLICA DOS DONS - parte 10

A NATUREZA APOSTÓLICA DOS DONS ESPIRITUAIS DE I CORÍNTIOS 12

Prof. Moisés C. Bezerril

I CORÍNTIOS 12:8-11

Porque a um pelo Espírito é dada a palavra da sabedoria; e a outro, pelo mesmo Espírito, a palavra de conhecimento; E a outro, pelo mesmo Espírito, a fé; e a outro, pelo mesmo Espírito, os dons de curar; E a outro a operação de maravilhas; e a outro a profecia; e a outro o dom de discernir os espíritos; e a outro a variedade de línguas; e a outro a interpretação das línguas. Mas um só e o mesmo Espírito opera todas estas coisas, repartindo particularmente a cada um como quer.

Interpretação das Línguas (hermeneia glossôn)

Para uma boa definição desse dom, é necessário uma boa compreensão da natureza do dom de línguas. Primeiramente, é mister deixar claro que as línguas de Marcos (novas línguas), bem como as de Atos e as de I Coríntios são exatamente o mesmo dom. O uso indiscriminado de glossôn por dialektos em Atos 2 é clara evidência de que os apóstolos entendiam “línguas” como idiomas inteligíveis falados por nações gentílicas. Em nenhum momento as Escrituras do Novo Testamento fazem uso do termo glossa para designar línguas estranhas ao homem, como querem os pentecostais de nosso tempo.

O dom da interpretação (hermeneia) era um dom empregado para traduzir construções sintáticas de um outro idioma não conhecido pela assembléia. Tal dom era distinto do dom de línguas, pois também fazia parte das duas listas de I Coríntios. O dom de interpretação era um dom miraculoso, que acontecia sob a influência do Espírito.

Se um homem podia falar um idioma estrangeiro, por que ele mesmo não podia interpretar? Simplesmente, porque não era seu dom. O que dizia em língua estrangeira o dizia debaixo da direção do Espírito (At 2.4); se houvesse tratado de interpretar sem o dom de interpretação, teria falado ele mesmo, e não como o Espírito dava o que falar.10

Como muito bem coloca Hodge, o dom de interpretação não era inerente ao dom de línguas, visto que era necessário que houvesse alguém com o dom de interpretar, ou o que falava línguas buscasse socorro divino para que houvesse interpretação (I Co 14.13). Se o falante não tem a tradução consciente simultânea, como qualquer pessoa que fale uma língua aprendida, é porque o falar das línguas não é um falar do homem, e sim do Espírito. Se for necessária uma assistência externa ou mesmo separada do dom de línguas para que haja interpretação, entende-se, pois, que a interpretação das línguas consiste numa manifestação divina e miraculosa do Espírito (I Co 12.11), em dar o entendimento do significado de palavras em um idioma nunca estudado. Se o que fala em línguas, o faz sem haver aprendido, o que traduz também o faz sob a direção do Espírito, sem nunca ter conhecido a língua.

O termo grego diermeneuô(interpretação)nunca pode ser aplicado àquilo que não faz sentido. Uma prova de que as línguas interpretadas eram idiomas sintaticamente perfeitos, é que no livro de Atos não houve interpretação das línguas faladas em Atos 2,10,19, e ainda assim, houve compreensão dos tais idiomas por muitos estrangeiros. Também é interessante notar, que as línguas de Atos 2 não foram compreendidas por todos (At 2.13). O dom de interpretação consistia, no exercício do Juízo divino, já ensinado por Jesus em Mt 13.10-12, que tinha o mesmo objetivo de falar por parábolas. Todos aqueles que não entendem a verdade de Deus, foram excluídos da graça. Em Atos, o dom de interpretação não está presente porque Deus tinha o propósito de excluir indivíduos no grande conglomerado de nações. Já em I Coríntios o dom de interpretação se faz presente porque se trata da comunidade dos santos (I Co 1.2), local onde se encontram os já selecionados pela graça. Sendo assim, as línguas não podiam ser exercidas sem interpretação, pois se isso acontecesse, significaria que a comunidade que não compreendesse o que foi dito estaria sendo excluída da graça. Esta é a razão pela qual Paulo diz que as línguas são um sinal para os incrédulos (I Co 14.22), pois só os incrédulos não compreendem as grandezas de Deus.

Há ainda uma dificuldade com I Co 14:4 (“o que fala em outra língua a si mesmo se edifica...”). Se era necessário a presença de um intérprete, como poderia alguém usando o dom de línguas edificar a si mesmo sozinho? A resposta a esta pergunta é que possivelmente Deus dava o dom de interpretação também às pessoas que falavam línguas, (I Co 14:13). O erro que estava ocorrendo na igreja de Corinto era que esse espirituais que tinham o dom de línguas e podiam interpretá-las, estavam guardando a doutrina revelada só para si; essa postura foi veementemente reprovada pelo apóstolo Paulo.

domingo, 23 de agosto de 2009

A NATUREZA APOSTÓLICA DOS DONS - parte 9

A NATUREZA APOSTÓLICA DOS DONS ESPIRITUAIS DE I CORÍNTIOS 12

Prof. Moisés C. Bezerril

I CORÍNTIOS 12:8-11

Porque a um pelo Espírito é dada a palavra da sabedoria; e a outro, pelo mesmo Espírito, a palavra de conhecimento; E a outro, pelo mesmo Espírito, a fé; e a outro, pelo mesmo Espírito, os dons de curar; E a outro a operação de maravilhas; e a outro a profecia; e a outro o dom de discernir os espíritos; e a outro a variedade de línguas; e a outro a interpretação das línguas. Mas um só e o mesmo Espírito opera todas estas coisas, repartindo particularmente a cada um como quer.

Variedade de Línguas (gene glossôn)

Nos versos 10 e 28, o nome do dom é “variedade de línguas” (genê – espécies, variedade, gêneros). O termo “variedade” aponta para uma idéia de distinção. As línguas eram distintas porque eram idiomas falados que podiam ser diferenciados.

AS LÍNGUAS NEOTESTAMENTÁRIAS ERAM REVELACIONAIS E ESTAVAM RELACIONADAS COM O PROCESSO DE ESCRITURAÇÃO DA DOUTRINA DO NOVO TESTAMENTO

PRIMEIRA PROVA: Era um dom entre os dons revelacionais.

A inclusão do dom de línguas no grupo dos dons que cessariam (I Co 13.8) constitui clara evidência que as línguas faziam parte dos dons revelatórios, pois os únicos dons previstos para cessação são os dons voltados para o aperfeiçoamento da doutrina da Nova Aliança. Em I Co 13.8, Paulo resume a cessação desses dons em três palavras distintas: profecia (que encerra o apostolado, o profetismo, curas, milagres e discernimento de espírito), línguas (encerrando-se o dom de línguas e interpretação de línguas) e ciência (que encerra o conhecimento e a sabedoria da era apostólica por meio extraordinário). Como esses dons tinham a função de revelar a verdade autoritativa e inspirada para a igreja de todos os tempos, bem como eram dons que na era apostólica traziam a verdade parcialmente (I Co 13.9), podemos concluir que depois de completada a revelação do NT, tais dons cessariam (I Co 13.8).

SEGUNDA PROVA Era um dom de conteúdo doutrinário

Em I Co 14.6 Paulo mostra que as línguas são um dom doutrinário, e que, por meio delas, a igreja deveria receber o mesmo conteúdo de profecia, revelação, conhecimento e ensino. Sendo assim, as línguas eram um dom que trazia acréscimo teológico à igreja quanto à doutrina da Nova Aliança. Infelizmente as versões da SBB mudaram a tradução desse texto, causando confusão na mente dos leitores. A melhor tradução desse texto é a tradução da Bíblia de Jerusalém, e a NVI.7 Eis como a Bíblia de Jerusalém traduz I Co 14.6:

Supondo agora, irmãos, que eu vá ter convosco, falando em línguas: como vos serei útil, se a minha palavra não vos levar nem revelação, nem ciência, nem profecia, nem ensinamento?

Com esta tradução em mente, as línguas consistiam de um dom de conteúdo doutrinário. Uma outra prova disso, é o emprego que Paulo faz do termo “edificar” (oikodomeô), o qual só é empregado quando alguma coisa é acrescentada à mente (compare I Co 14.4,5 com 14.14,15). As línguas, portanto, deveriam edificar, ou seja, trazer conteúdo inteligível à mente (I Co 14.19).

TERCEIRA PROVAEra um dom semelhante à profecia

O dom de línguas não é inferior à profecia; esse dom quando interpretado tem o mesmo valor de profecia (I Co 14.5). Se as línguas correspondem à profecia, esse dom deveria ser de natureza inspirada. Isso pode ser percebido na primeira referência ao dom em Atos 2.4, onde o termo apofthegomai é empregado para a fala inspirada. Com este termo, Pedro deu total ênfase na idéia de que línguas consistia na “fala do Espírito” ( to pneuma edidou apofthegomai autoi). Esta expressão é correlata das afirmações proféticas do Antigo Testamento “Assim diz o Senhor”. Dessa forma, línguas consistem numa manifestação profética na qual Deus fala ao homem.

QUARTA PROVAEra um dom de revelar mistério

Seria o dom de línguas um dom para falar mistérios com Deus? O que Paulo quer dizer em I Co 14.2-4?

O dom de línguas não foi dado para uso particular (esse é o argumento do apóstolo em todo o capítulo 14), pois os dons foram dados com vistas à edificação da igreja. Paulo fala da natureza das línguas, que naturalmente, Deus entende, mas o homem necessita de intérprete. Em I Co 14.2, a expressão “porque em espírito fala mistério” corresponde a uma má tradução das nossas Bíblias.8 O dom de línguas não é um exercício do espírito humano, mas uma atividade divina do Espírito Santo no homem (At 2.4: “passaram a falar em outras línguas, conforme o Espírito dava o que falar”). A palavra mysterion (mistério) é a chave para entender o termo pneumati como o “Espírito de Deus”, pois falar mistérios é uma atividade divina (At 2.11). Alguns argumentam que o termo mistério é empregado para referir-se ao fato das línguas não serem compreendidas, tornando-se, assim, “um mistério” para quem ouve. Mas Paulo não afirma “falar em mistério”, e sim “falar mistério”, o que pode ser muito bem entendido à luz de Atos2.11, como “falar as grandezas de Deus” que estavam ocultas. A expressão “falar mistério” corresponde a falar o que estava oculto, e não falar em oculto, pois dessa forma, o dom de línguas não serviria para a igreja. O termo mysterion sempre está relacionado com a história da redenção (Ef 3:4-7) e com os dons proféticos nos três capítulos sobre dons espirituais, e nunca relacionado ao modo ininteligível de se receber uma informação, (I Co 13:2).

É importante lembrar que o dom de línguas consiste num dos assuntos mais difíceis do Novo Testamento, e que além disso, nossas traduções não ajudam, ao inserirem palavras que desvirtuam o verdadeiro sentido do texto.9

domingo, 19 de julho de 2009

A NATUREZA APOSTÓLICA DOS DONS - parte 8

A NATUREZA APOSTÓLICA DOS DONS ESPIRITUAIS DE I CORÍNTIOS 12

Prof. Moisés C. Bezerril

I CORÍNTIOS 12:8-11

Porque a um pelo Espírito é dada a palavra da sabedoria; e a outro, pelo mesmo Espírito, a palavra de conhecimento; E a outro, pelo mesmo Espírito, a fé; e a outro, pelo mesmo Espírito, os dons de curar; E a outro a operação de maravilhas; e a outro a profecia; e a outro o dom de discernir os espíritos; e a outro a variedade de línguas; e a outro a interpretação das línguas. Mas um só e o mesmo Espírito opera todas estas coisas, repartindo particularmente a cada um como quer.

Discernimento de Espírito (diakrisein pneumatôn)

A palavra diakrisei (julgar, discernir, distinguir) encontra-se em apenas 03 versos do NT, (Rm 14.1; I Co 12.10: Hb 5.14). Nesses textos o sentido é sempre de “distinguir”, “fazer separação”. Contudo, a palavra mais importante para se entender o dom de “discernimento de espírito” é pneunatôn. Nos versos 8, 9, e 10 de I Co 12 a expressão diakrisei pneunatôn está entre os dons de palavra, de comunicação direta revelada. Em I Jo 4.1, o termo pneumata está relacionado com profecia, concordando com a mesma idéia de Paulo, que usa o termo pneunatôn no grupo dos dons proféticos. O termo pneunatôn, na verdade, é sinônimo de profecia. O dom de discernimento de espírito tem a ver com “inspiração”. Como a profecia era revelada, autoritativa, e inspirada, Deus deu um dom da mesma natureza do dom profético para julgar os pretensos pneumatikoi de Corinto. Somente um dom profético pode julgar outro dom profético. Ao povo comum não foi dado julgar profecias, mas somente àqueles que tinham o dom profético de discernimento de espírito. Como o caráter da profecia é de trazer revelação de mistério (I Co 13.2), um crente comum nunca seria apto para identificar a inspiração do profeta e de sua profecia porque ninguém conhecia o mistério. Somente o dom profético de discernimento seria capaz de identificar os falsários da revelação. A razão da existência desse dom era a novidade da revelação dos princípios e mistérios da Nova Aliança que ainda estavam sendo dados para formar o corpo da doutrina neotestamentária ou fundamento apostólico. A igreja ainda não conhecia esses mistérios, portanto não tendo tal conhecimento, os crentes comuns não teriam como julgar a revelação que ainda estava sendo dada em caráter de novidade. Por tratar-se de um dom profético, possivelmente esse dom era dado aos profetas exclusivamente. Se aos profetas foi dado o mérito de decidir a ordem de quem profetizaria primeiro (I Co 14.31), é possível que só os profetas pudessem julgar os pretensos profetas inspirados naquela época. A menos que existisse um dom profético para revelar a falsidade de uma suposta profecia ou mistério, toda a igreja seria enganada. Essa foi a época da formação dos livros apócrifos e pseudoepígrafos que reivindicavam inspiração. O exercício do dom de discernimento era aplicável, exatamente, para não permitir que houvesse na igreja apostólica várias fontes de doutrina supostamente revelada, reivindicando igualdade no corpo dos escritos apostólicos do Novo Testamento.

quarta-feira, 8 de julho de 2009

A NATUREZA APOSTÓLICA DOS DONS - parte 7

A NATUREZA APOSTÓLICA DOS DONS ESPIRITUAIS DE I CORÍNTIOS 12

Prof. Moisés C. Bezerril

I CORÍNTIOS 12:8-11

Porque a um pelo Espírito é dada a palavra da sabedoria; e a outro, pelo mesmo Espírito, a palavra de conhecimento; E a outro, pelo mesmo Espírito, a fé; e a outro, pelo mesmo Espírito, os dons de curar; E a outro a operação de maravilhas; e a outro a profecia; e a outro o dom de discernir os espíritos; e a outro a variedade de línguas; e a outro a interpretação das línguas. Mas um só e o mesmo Espírito opera todas estas coisas, repartindo particularmente a cada um como quer.

Profecia (profêtéia)

A profecia não é pregação, pois se fosse, seria um dom igual ao de mestre ou pastor. Paulo nos adverte em I Co 12.4 que “os dons são diversos”, portanto profecia não pode ser igual ao dom de pastor ou mestre. Ainda em 14.6 (...se vos não falar por meio de revelação, conhecimento, ou profecia, ou ensino) a profecia é distinta de conhecimento e ensino, os quais são elementos primordiais da pregação. Isso acontece porque a pregação é planejada (adquire-se conhecimento) e executada (ensina-se), enquanto que a profecia é dada inesperadamente pela vontade de Deus e não do homem (I Co 14.29-32). A profecia é dada por meio de revelação (I Co 14.29,30), a pregação é por iluminação.

As mulheres foram proibidas de falar na igreja (I Co 14.34,35), mas podiam profetizar (I Co 11.5). Parece contraditório, pois quem profetiza fala. Contudo a proibição do apóstolo é com respeito ao ensino (I Tm 2.12). Logo, a profecia não pode ser igual ao ensino, pois seriam proibidas também de profetizar. Na verdade, ensinar é o exercício da autoridade humana, enquanto a profecia é o exercício da autoridade divina. Quando as mulheres profetizavam quem estava falando era Deus; quando os homens ensinam, são eles que, autoritativamente, falam à igreja.

Uma outra característica da profecia é o conhecimento de mistério (I Co 13.2). Os termos excludentes mysterion e apokalyptô são usados por Paulo em Ef 3.4,5, onde os termos “profecia” e “profetas” estão relacionados com a revelação do mistério. Essa é a teologia paulina da profecia; a profecia é o conhecimento da revelação de um mistério que estava oculto e agora é falado.

Paulo aguardava uma cessação da profecia ainda em seus dias, pois ele se incluiu no processo parcial da profecia de seu tempo: “em parte conhecemos, e em parte profetizamos”. O “perfeito” de I Co 13.10 não é a segunda vinda de Cristo, pois Paulo nunca usa esse termo para a vinda de Cristo, e sim “a vinda do Senhor”, ou “o Senhor na sua vinda”. Ainda vale salientar que, o apóstolo não usa o termo teleion em seus escritos para escatologia, e sim para maturidade. Também, o apóstolo não teria dificuldade de chamar “a vinda do Senhor” em I Co 13.10, se esse texto fosse escatológico. Não há nenhuma evidência exegética para considerar o texto de I Co 13.8-13 como escatológico. O tema predominante ali é a maturidade ou perfeição da profecia. A profecia perfeita não dependeria mais de profetas que revelavam verdades parcialmente. Paulo tinha consciência de um cânon que haveria de se formar com a profecia perfeita. Como um bom judeu, Paulo convivia com o cânon do AT, e entendia que a Nova Aliança era para os gentios e judeus da sua época o que a Antiga Aliança foi para Israel. O processo revelatório culminaria numa extinção do profetismo parcial, dando lugar à profecia perfeita (ou teleion). Paulo imaginava que fazia parte do estágio final desse processo ao afirmar: “em parte conhecemos, e em parte profetizamos, quando vier o perfeito, então o que é em parte será extinto”. Ora, se o que será extinto é em parte, então a profecia e o conhecimento parciais darão lugar à profecia e ao conhecimento completo. O que Paulo chama de “em parte” é a profecia e o conhecimento da era apostólica, os quais dependiam das revelações proféticas. Como haviam profetas e apóstolos espalhados por toda Ásia, profetizando e revelando conhecimentos do evangelho, cada um profetizava pedaços da revelação. Paulo revelou partes do conhecimento, Pedro detinha outra parte na mesma época, Judas, Tiago, João, e o profeta de Hebreus, participavam do mesmo processo. Lembremos que nessa época o Novo Testamento ainda era em parte. O fenômeno profético se encerraria depois que Deus revelasse toda a sua vontade e a escrevesse nas páginas do Novo Testamento. Esse é o teleion paulino.

Toda a doutrina do Novo Testamento era conhecido dos apóstolos e da igreja apostólica apenas em pedaços (em parte). Pedro, possivelmente, conheceu alguns escritos de Paulo, mas talvez não tenha conhecido os escritos de João ou de Judas. E assim sucessivamente. Como os apóstolos conheceram e entendiam o processo revelatório do AT, certamente, tinham consciência e aguardavam a fase final do mesmo processo para a Nova Aliança, quando a Igreja conheceria toda a verdade revelada pelos apóstolos e profetas do NT( Ef 2:20; 3:5). Essa revelação final e escriturada é o perfeito de I Co 13.10.

Na literatura paulina, profeta era ofício tanto quanto apóstolo (I Co 12.28). Há quem diga que a expressão “apóstolos e profetas” de Efésios 2:20 aplica-se ao mesmo grupo, ou seja, “apóstolos que são profetas”. Mas esta interpretação está errada porque Paulo faz distinção das duas classes de dons(I Co 12:28, 29; Ef 4:11), como ofícios distintos. Um outro argumento seria que profeta não poderia ser ofício porque está junto com outros dons que não ao ofícios (curar, falar línguas); mas esse argumento não é válido porque o ofício de apóstolo está na mesma lista também. O que mais importa é que em I Coríntios 14:37 os que profetizam são considerados profetas, e os que exercem outros dons são chamados de espirituais (aqueles por meio de quem o Espírito agia sem ofício). Isto é confirmado em Ef 2.20 e 3.5, quando Paulo cita os ofícios de apóstolo e profeta como sendo responsáveis por lançar o fundamento da fé da Nova Aliança. Sendo Paulo judeu, a sua visão de profecia é a mesma judaica. Não há no NT diferença de níveis de profecia. Assim Paulo destaca a profecia como ofício, diferenciando-a dos dons em I Co 14.37, quando fala de dois tipos de atividade do Espírito: se alguém se considera profeta (profetên, ofício), ou espiritual (pneumatikon, dons). Os últimos são aqueles que exercem dons sem ofício, e os primeiros exercem o ofício de profeta.