A NATUREZA APOSTÓLICA DOS DONS ESPIRITUAIS DE I CORÍNTIOS 12
Prof. Moisés C. Bezerril
I CORÍNTIOS 12:28
“A uns estabeleceu Deus na igreja, primeiramente, apóstolos; em segundo lugar profetas; em terceiro lugar, mestres; depois, operadores de milagres; depois, dons de curar, socorros, governos, variedade de línguas.”
Socorros (antilempseis)
A palavra antilempseis ocorre apenas uma vez em todo o Novo Testamento, sendo importada da LXX para o NT com o significado de auxílio de Deus ou dos homens; seu sentido básico é “auxílio”, “assistência”, “ajuda”, “socorro”.
O dom de socorro não aparece na primeira lista e sim na segunda do capítulo 12. É curioso que ninguém mais nas escrituras do Novo Testamento emprega este termo. Nem mesmo Paulo o usa em outros lugares. Mas isto não torna esse dom menos importante do que os outros dons, pois ele é de vital importância para a vida da igreja.
A vida da igreja cristã, no primeiro século, é marcada por muita perseguição imposta pelo judaísmo, e depois pelo Império Romano. Os apóstolos e os líderes da igreja tinham a incumbência de gastar tempo apenas com a Palavra. Mas uma igreja perseguida é uma igreja marcada por profundas necessidades. Essas necessidades não eram coisas simples que todos podiam resolver conjuntamente. Como ainda hoje, somente uns poucos se interessavam pelas necessidades dos outros. Nesse contexto Deus não deixou sua igreja órfã de sua misericórdia e cuidado; levantou e vocacionou pessoas, por meio de seu Espírito, as quais gastavam suas vidas cuidando dos crentes semi-mortos da perseguição, de viúvas que perderam seus maridos e seu sustento; esses diáconos adotavam filhos que perderam seus pais, dando comida e abrigo aos mais empobrecidos pela ira dos inimigos de Cristo. Também tornaram-se cuidadores das mulheres cristãs abandonadas por seus maridos pagãos. Essa vocação era obra do Espírito porque eles viveram numa época em que tinham de ser audaciosos e muito corajosos para se envolver em causas judiciais do império, sofrendo perseguições e correndo risco de morte. Dar guarida a um “criminoso” ou “fora da lei” (como eram considerados os cristãos do primeiro século pelo império) era apoiar a rebeldia contra o poder de Roma. Ninguém teria coragem de arriscar diariamente a própria vida por outra pessoa, a não ser se fosse pelo Espírito de Deus. Graças a esse dom os apóstolos foram preservados em suas vidas várias vezes. Assim foram os diáconos da igreja primitiva. O dom de socorros foi exercido pelo ofício do diaconato desde os dias apostólicos (At 6), e essa tem sido a melhor interpretação desse dom desde Crisóstomo.
Governos (kiberneseis)
A palavra kiberneseis é uma palavra raríssima na literatura do Novo Testamento, também originária da literatura da LXX. O substantivo era muito usado na literatura clássica para o piloto do navio, seu verbo era comum para a administração e o governo de uma casa.
O dom de governo não é tratado em nenhum outro lugar, a não ser nesta referência. Este dom é claramente distinto do dom de ensino (“palavra de conhecimento” ou “mestres”), também distinto do pastorado. Paulo poderia estar falando de presbíteros regentes, mas não há muitas provas para isto. Em I Tessalonicesnses 5:12 há alusão aos que “presidem”, mas esses são os mesmos que admoestam (nouthentais), possivelmente é o bispo de I Tm 3.
Há quem interprete I Tessalonicenses 5:17 como sendo dois tipos de presbíteros (docente e regente), mas o texto não dá segurança para isto por dois motivos:
a) governar bem e ensinar são dois pré-requisitos que devem ser encontrados no bispo de I Timóteo 3, possivelmente em 5:17 Paulo esteja falando da mesma pessoa;
b) a expressão paulina kalôs proistamenon(que governem bem) configura igualmente em I Timóteo 3:4 (para os bispos), 3:12 (para os diáconos), e 5:17 (para os presbíteros), designando apenas um bom governo ou uma boa liderança;
c) tendo em vista o emprego acima citado, expressão kalôs proistamenon não pode ser empregada para classe de presbíteros, e sim para a qualidade de presbítero de governar bem;
Como o dom de governo está calaramente distinto do dom de ensino tanto
Teresina, 08 de dezembro de 2005.
NOTAS
i Pois dizer “anátema Jesus” seria dizer “nulo Jesus”, ou seja, nega sua existência histórica.
1 Hodge p. 223. Minha Tradução.
2 Hodge p. 223. Minha Tradução.
3 Hodge p. 226.
4 p. 227.
5 Idem.
6 O termo dynamei não se aplica, em todo o NT, a pessoas que não sejam Jesus e o grupo dos apóstolos; fora esses dois, o dom era usado somente pelos falsos profetas.
7 É importante lembrar que a NVI consiste numa tradução com muitos problemas em outros lugares.
8 Nos dois casos onde o termo pneumati aparece referindo-se ao espírito humano (I Co 14.14,32) vem acompanhado de pronome possessivo (pneuma mou) adjunto adnominal (pneumata profetou) que distingue claramente o espírito humano do Espírito de Deus.
9 Tomemos como exemplo a ARA, que insere o termo “OUTRAS línguas”, e algumas edições corrigidas (Versão da Imprensa Bíblica) que acrescentam a expressão “LÍNGUAS ESTRANHAS”, que não aparecem no texto grego. É possível que esses acréscimos sejam feitos para descaracterizar as línguas como dialeto e torná-las como algo estranho ao homem.
10 Hodge, p. 230.
